Para me pronunciar fundamentadamente acerca deste assunto, considero que me faltam dados decisivos, sem os quais estou em branco.
Nisto do preenchimento de cargos do Estado, das autarquias e correlativos, sempre me preocupou mais saber se a existência do cargo se justifica, se foi legal e regularmente preenchido e se o provido o está a desempenhar a contento do interesse geral. Sempre me preocupou bem menos saber quem é efectivamente a pessoa do provido.
Por razão simples e que está já bem evidenciada na formulação do anterior parágrafo, mas igualmente porque não posso arredar da análise a circunstância de em Portugal – falemos agora apenas do “contenente” – sermos todos “primos e primas” e, nos poucos casos em que o não somos, surgirmos como amigos e amigas uns das outras e outras dos uns, conhecendo-nos todos em redor e quase sempre… de gingeira”…
Ora, assim sendo, como efectivamente é, estaríamos arrumados se tudo o que fosse “primo ou prima, amigo ou amiga, conhecido ou conhecida de longa ou fresca data”, estivesse impedido de aceder a qualquer lugar, por muito sensível que fosse.
O desemprego rapidamente subiria a números cinco ou seis vezes mais escandalosos do que os escandalosos – e, ainda assim, aldrabados… – números do desemprego vilarístico
Isto, falando do “contenente”, ou seja, de 10 milhões de habitantes.
Imagine-se, agora, a situação na Madeira, com 245.000 e nos Açores, com 241.000! Ou seja, cada um deles com gente que não chegava a preencher por completo dois – apenas dois… – antigos Estádios da Luz! Ou a capacidade do recinto da Alameda Afonso Henriques. Isto dá a dimensão daquilo de que estamos a falar, não?
Façamos um exercício rápido.
Por um momento, imaginemos a Alameda quase cheia como um ovo, sem mais ninguém por ali, léguas e léguas em redor.
Quantos “primos e primas e amigos e amigas e conhecidos e conhecidas de longa e fresca data” de tipos – que também lá estariam – detentores de cargos públicos e autárquícos e correlativos por lá não haveria?
E todos esses, só por serem “primos e primas e amigos e amigas e conhecidos e conhecidas de longa e fresca data” teriam de ser afastados de todos os cargos?
E, afastando-os, de que forma se resolveria o problema do preenchimento desses mesmos cargos?
À luz de tal impedimento só vejo uma solução, qual seja a da deslocação de uma delegação do Instituto do Emprego e Formação Profissional à Transilvânia, para consigo trazer “palettes” de romenos que pudessem colmatar as enormes faltas de gente passível de reunir condições de acesso aos empregos.
Boa solução! Com um senão, porém. E de peso: ninguém poderia garantir que entre esses romenos trazidos às “palettes” não viriam, disfarçados e de boca fechada para não se lhes vislumbrar a dentuça, “primos e primas e amigos e amigas e conhecidos e conhecidas de longa e de fresca data” do conde Drácula. Nem tão pouco, que o próprio viesse ao rebolão no meio da confusão geral… Que grande sarilhada, hein?!
Ok, ok, grande sarilhada efectivamente. Mas o que interessa “über alles”, que é com quem diz “acima de tudo”, é resolver os problemas e, pelo menos o do preenchimento dos lugares por pessoas sem a mácula de serem “primos e primas e amigos e amigas e conhecidos e conhecidas de longa e fresca data” dos titulares dos cargos possidentes estaria resolvidíssimo.
Mas – há sempre um mas a dar cabo de todas as excelentes ideias… – haveria ainda um outro magno problema a solucionar.
Qual?! Sim, qual?!…
Ah, sim. O de que fazer com os “primos e primas e amigos e amigas e conhecidos e conhecidas de longa e fresca data” de madeirenses e açoreanos amandados para o desemprego pela chegada dos “primos e primas e amigos e amigas e conhecidos e conhecidas” do Drácula, para ocuparem os lugares que abusivamente antes eram seus?
Que fazer desta gente! Ó dúvida ingente, ó dúvida perene, ó dúvida sistemática! Por que raio de descomunal carga de água existes para nos dares cabo da caixa bestuntal?
Pensemos… sem dormir… pensemos… sem comer… pensemos… sem beber… pensemos… sem…
Enfim, pensemos, caramba!… pensemos!… Por uma vez pensemos, c’um escafandro!…
E, finalmente, a uma excelente solução chegaremos!
Embrulhemos, então, em papel celofane toda aquela catrefada de gente e, em “palettes” semelhantes às que trouxeram os “draculorum amici”, em belos paquetes de cruzeiro de fazer inveja aos ricos, ou pretensos, do “Funchal do amor”, com toda a solicitude, façamo-los “aportar” à fronteira do desértico planalto de altitude louca do Tibete ou à de alguma igualmente quase desértica pampa argentina e, lá chegados, abramos os braços, cheios de magnanimidade, e ofereçamos-lhes:
- Toda esta planura a perder de vista é vossa! Desfrutem-na e sede felizes!
Após o que, humilde, serenamente e às arrecuas, nos retiraremos para que se instalem como melhor lhes aprouver, “senza maledettas pressiones”.
Mas atenção! Muita atenção, por favor!!!
Que jamais, por um minutinho sequer, nos atrevamos a desligar o satélite através do qual os vigiaremos sem desfalecimentos. Não vá dar-se o horrendo caso de os incautos estabelecerem ali outra oligarquia que deite por terra todos os nossos abençoados esforços de uma cana.
RUBEN VALLE SANTOS
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